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- "A Espécie Fracassou"
- Adolescência ou Aborrecência?

- Vivendo e Aprendendo a Jogar
- Caminho das Missões


Foto: Reprodução RBS TV - SC


“A espécie fracassou”.

Essa frase é freqüentemente usada por um amigo, quando se depara com algum fato decorrente da sordidez humana.
Lá do outro lado do mundo estão se matando em nome de Deus? -“A espécie fracassou”, ele decreta.
Big Brother? - “A espécie fracassou”.
MST? – “A espécie fracassou”.
Corrupção? Inveja? Homicídio? Menor abandonado? – “A espécie fracassou”.

Hoje me vejo obrigado a concordar – e a fazer coro – com ele.

A notícia que me chega é revoltante. Asquerosa. Sórdida. Felizmente ainda não perdi minha capacidade de me indignar. Por isso não podia me furtar a falar aqui desse acontecimento hediondo. Veja se você não concorda comigo:

Estão ROUBANDO as doações enviadas para Santa Catarina.

Isso mesmo. As doações estocadas na Vila Germânica, em Blumenau, estão sendo discaradamente desviadas por pessoas que não precisam delas.

Uma reportagem da RBS TV flagrou, com uma micro-câmera escondida, alguns desses roubos:

- Duas mulheres, aparentando uns 60 anos de idade, escolhiam roupas e tênis. "- Esse tá descosturado. Precisa escolher direito" - disse uma delas. Uma voluntária que trabalhava no local chegou a repreendê-las, mas a desgraçada saiu-se com essa: “-Que, vão dar tudo pras pessoas que precisam... Hum...Vão!” - obviamente, ela insinuava que as autoridades ou responsáveis pelas doações não fariam sua parte, o que não justifica, a meu ver, o ROUBO que elas praticavam.

- Uma outra mulher acompanhada por sua filha, encheu um carrinho de supermercado(!) com doações e saiu faceira, como se estivesse num shopping gratuito. Em seguida, chega o marido com mais donativos. Lotaram o carro e seguiram para casa. A reportagem seguiu-os e entrevistou o boçal, que, claro, negou o que todos viram. Detalhe: Sua casa estava absolutamente intacta, fora das áreas atingidas pela tragédia. E o cretino ainda dá um sorriso de deboche quando entrevistado.

- Em seguida, o mais patético, revoltante e asqueroso flagrante: Soldados do glorioso Exército Brasileiro, fardados e a serviço, destacados para guardar e distribuir as doações, cumpriram à risca a ordem: distribuíram doações entre si e as guardaram... em suas mochilas. Saíram do pavilhão sorridentes, abarrotados de doações e embarcaram altivos no caminhão verde-oliva (essa cor me dá nojo até hoje!) do batalhão que os esperava.

Seguiram-se explicações, promessas de autoridades de que “investigarão e punirão os responsáveis”, e blá, blá, blá...

Se serão investigados e punidos é uma questão que nem vou discutir. Existem falhas na distribuição dos donativos? É evidente que sim, mas não podemos nos esquecer de que trata-se de uma situação de emergência, que exige quase um esforço de guerra para ser administrado.

O que me deixa indignado é a forma como essas pessoas agiram. Ainda que saibamos que a impunidade corre solta (“a oportunidade faz o ladrão”, diria minha avó), não consigo me conformar com o fato de que pessoas com uma razoável situação sócio-econômica, que não estão passando fome nem tiveram seus lares devassados, tenham a capacidade de ROUBAR doações que são fruto de uma mobilização nacional em prol de quem realmente necessita, e ainda por cima têm o displante de caçoar (como fez a velhaca que cuspiu veneno no trabalho dos voluntários), dissimular (como fez o pulha que negou diante de todas as evidências), e o pior: prevaricar – como fizeram os soldadinhos de merda que, “a serviço da pátria”, empanturraram-se de roupinhas, tênis e – pasmem – até sutiãs (é para minha namorada, justificou um dos criminosos fardados)!

Ainda que todas as instituições falhem, ainda que ninguém seja capaz de restaurar a ordem e punir a quem mereça, ainda que todos fechem os olhos para as mazelas, eu gostaria de acreditar que o ser humano pudesse ser capaz de agir dignamente, “policiado” apenas por sua consciência, pelo bom senso. Ah, utopia...

Definitivamente, A ESPÉCIE FRACASSOU.

dino - 16.12.2008

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Adolescência ou Aborrecência?

A maior vantagem de se escrever em um blog é poder falar de tudo um pouco, dar palpites em todos os assuntos, sem ser especialista em nenhum.

Hoje, por exemplo, vou responder a um e-mail de uma leitora, que me chega com um pedido de socorro. Perguntava se era possível a uma mãe gostar mais de um filho do que de outro.

E explicava que estava apavorada com a idéia de que isso pudesse estar acontecendo com ela. Mãe de duas lindas meninas, estava no limite da paciência com a mais velha, recém-empossada no trono da adolescência. Sim, porque adolescentes se consideram soberanos, acreditam que acabaram de adquirir o direito de deliberar sobre tudo sem a maléfica interferência desses seres chatos e caretas, os pais. (Desculpe. Sei que “careta” é gíria velha, fora de moda, mas não encontro outra similar mais atualizada).

Pois bem. Deixando claro que não sou psicólogo, muito menos expert em adolescentes, conto com minha experiência de quem criou dois filhos que já deixaram para trás essa fase da vida (e sem traumas!) para responder e tentar dar algum conforto à minha amiga e leitora.

A adolescência é um fenômeno mais ou menos recente. Há algumas décadas, não existia essa fase de transição. Os meninos se tornavam homens da noite para o dia, quando eram levados, pelas mãos dos pais, a conhecer um prostíbulo. As meninas, casando-se com o “escolhido”... pelo pai.

Mais recentemente, os meninos pulavam da infância para a idade adulta no momento em que entravam em seu primeiro emprego – arranjado pelo pai - ou quando entravam para o Exército (este, o meu caso). E as meninas continuavam meninas até se casarem, não mais com aquele que seu pai escolhia, mas com o primeiro que se dispusesse a subir ao altar a seu lado.

Só de uns trinta anos pra cá é que algum iluminado deliberou que deveria haver um espaço temporal entre o menino e o homem, entre a menina e a mulher. E fez-se a adolescência. Matematicamente, decidiu-se então que a infância terminaria aos 11 anos e a idade adulta só chegaria aos 20 (acho que é isso). Assim, por decreto, definiu-se um período em que ninguém sabe exatamente como agir. Tente, por exemplo, proibir um adolescente de assistir a um filme que considera inapropriado para sua idade, e ele dirá que já é adulto. Tente dar a ele uma obrigação e ele dirá que ainda é criança...

À minha amiga, sugeri que faça tudo como vem fazendo, que não esconda de sua filha que está descontente e até com raiva, quando for o caso. Porque isso não significa que deixou de amar sua filhota, mas – pelo contrário – é um forte sinal de que se preocupa com ela. Se preocupa porque a ama. E o adolescente precisa saber disso. Já que se sente capaz de decifrar os maiores enigmas da psicologia humana, o adolescente precisa entender que sua mãe é apenas um ser humano, com todas as qualidades e defeitos inerentes à espécie. Sai de cena a “super-mãe” e entra a mulher normal.

Por outro lado, o adolescente nos testa o tempo todo. Não por maldade, mas porque ele precisa que nós lhe mostremos onde estão os limites, que ele ainda desconhece. Ao descobrir que é capaz (ao menos pensa que é) de tomar decisões, de escolher o seu próprio caminho, ele saboreia a liberdade de uma maneira como nunca havia experimentado antes. Mas não sabe onde e como parar.

Costumo citar uma metáfora: a adolescência funciona mais ou menos como aquelas pranchas de navio   em filmes de pirata. O adolescente vai caminhando pela prancha em direção ao mar, mas de olhos vendados. A cada passo espera o nosso comando para que pare. Ele confia em nós, e sabe que não o deixaremos “cair na água”. Se o ignorarmos sob o argumento de que ele precisa de liberdade irrestrita, não dando o comando na hora certa (o tal limite), fatalmente se afogará.

O fato é que não existe uma receita de educação infalível, nem encontraremos na esquina um Curso de Formação de Pais.

Só existe uma maneira de se aprender a ser mãe ou pai: sendo.

dino - 15.12.2008

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Vivendo e Aprendendo a Jogar

Certa vez, eu devia ter uns dez ou onze anos de idade, não sei ao certo, uma loja de brinquedos em meu bairro montou uma pista gigante de autorama e abriu inscrições para uma grande competição. O Autorama era meu sonho infantil de consumo, mas jamais poderia ter um. Para crianças como eu, a loja emprestava um carrinho para competir. Ao chegar para a corrida, meu pai me explicou que eu competiria com pessoas experientes, que tinham seu próprio autorama e que "preparavam" os carrinhos como se fossem mecânicos de Fórmula 1 e que, portanto, minhas chances de vencer eram mínimas.

Convenceu-me de que o "importante era competir". Entrei na disputa apenas querendo apertar aquele botão mágico que fazia o carrinho acelerar pela pista, sem me importar com os outros. E, o mais importante: sem nenhuma pretensão de vencer. Algumas capotagens depois, sai de lá desclassificado na primeira bateira, mas orgulhoso, com um "Certificado de Participação" debaixo do braço.

Passados muitos anos, levei meu filho a uma inevitável "peneira" de um clube de futebol. Seus olhos brilhavam ao calçar as chuteiras, preparando-se para entrar em campo e mostrar do que era capaz. Lembrei-me daquela lição de meu pai, e o preparei para um possível fracasso, embora, diferentemente do que aconteceu comigo naquela pista de autorama, meu filho tinha grandes chances de ser aprovado.

Mas ele também não escapou do fracasso. Quando saímos do campo, meu filho me disse - inconformado - que um garoto (cá prá nós, o maior perna-de-pau em campo) apresentou-se ao responsável pela seleção como o filho do Doutor Fulano, amigo do Sicrano, um famoso diretor do clube. Nem é preciso dizer que o cabecinha de bagre ficou com a vaga...

Ensinamos nossos filhos pela cartilha da competitividade feroz que, diga-se, nós mesmos criamos. A lei de Gérson, o "jeitinho brasileiro" de levar vantagem sempre, o "Q.I." (quem indica) e o "ganhar a qualquer preço" (inclua neste "a qualquer preço" todas as falcatruas possíveis) tornaram-se a regra.

O saldo dessa "cultura" é uma legião de jovens frustrados, depressivos, recorrendo a análise, prozacs - quando não a drogas ilícitas - porque não são capazes de lidar com a perda (material ou emocional, não importa). Porque não aprenderam que a "derrota" faz parte do jogo e é na análise racional da perda que identificamos nossas falhas e nos aperfeiçoamos.

Essas passagens me vieram à mente depois de acompanhar vários casos de nossos amigos catarinenses, que, ao encontrarem suas vidas enterradas debaixo de um monte de entulho, só tinham palavras de garra, coragem e disposição para seguir em frente, reconstruindo o que perderam. De onde eu esperava ouvir choros e lamentações, vieram demonstrações de força.

Pelos microfones das emissoras de TV e pelas páginas dos jornais, as vítimas de mais essa tragédia nos fazem relembrar a lição esquecida:

Precisamos reaprender a perder. PERDER COM DIGNIDADE, e recomeçar de cabeça erguida.

dino - 11.12.2008

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Caminho das Missões

O trajeto de táxi entre o aeroporto Salgado Filho e o Hotel, em Porto Alegre, costuma ser uma espécie de “rito de passagem”, quando deixo de ser o paulista estressado para ser o gaúcho fajuto mas apaixonado (pela cidade, inclusive). Por isso, evito puxar conversa com o motorista e fico absorto em pensamentos enquanto, numa espécie de sinergia, a cidade me recebe e eu a absorvo em seu todo.

Desta vez foi diferente. Sentei-me, como de costume, no banco traseiro, mas havia (ah, a tecnologia...) uma pequena tela de plasma no encosto do banco da frente, bem em frente aos meus olhos, onde desfilava um documentário pra turista ver, enaltecendo o Rio Grande do Sul, claro. A primeira imagem que vi nessa tela foi a das ruínas da Igreja de São Miguel as Missões, que me trouxe à lembrança minha incursão nesse patrimônio histórico e cultural do Estado. Meses antes eu havia feito o “Caminho das Missões”.

Sempre achei que bastaria dizer isso “fiz o Caminho das Missões”, para um gaúcho e ele, naturalmente saberia do que eu estava falando. Disse exatamente isso ao taxista, comentando sobre as cenas de seu DVD (que ele, obviamente não estava vendo), imaginando que ele soltaria um “Que tri! E o senhor gostou?” ou então algo como “Bah! Mas é trilegal o Caminho!”.

Ledo engano. Primeiro, ele fez cara de “Ãããhn?” como quem dissesse “do que o senhor está falando?”. Depois, auxiliado por umas dicas minhas, explicando que me referia a São Miguel das Missões, às Sete Missões, a Santo Ângelo, aos guaranis, etc., ele finalmente saiu de sua letargia geográfica e me disse: “Ah, sim! É onde tem aquela catedral enorme, né?” – se referindo a Santo Ângelo. Sim, meu amigo gaúcho, Santo Ângelo tem uma bela catedral, réplica do que teria sido uma igreja dos tempos missioneiros, mas eu me referia às ruínas, a São Miguel (a parte mais visível e mais bem conservada da região, Patrimônio Histórico da Humanidade).

A partir daí, os papéis se inverteram. Ele ia perguntando, como um turista interessado em saber mais, e eu – o forasteiro – dando a ele dicas de como fazer o Caminho das Missões, de onde se hospedar, o que levar na caminhada, etc...

Ao chegar ao meu destino, ele até anotou o endereço do site do Caminho - www.caminhodasmissões.com.br - dizendo que iria se informar melhor e, quem sabe, levar a família qualquer dia desses para conhecer as tais ruínas.

Fiquei surpreso com sua atitude, principalmente por se tratar de um gaúcho genuíno. E me peguei a pensar no caso, como sempre. Já ouvi muita gente dizer que sonha em fazer, ou irá fazer, ou fez o “Caminho de Santiago” (aposto que você já sabe que me refiro a Santiago de Compostela, na Espanha). Mas, quando eu dizia que estava me preparando para o Caminho das Missões, a mesma cara de interrogação do taxista se estampava nos meus interlocutores – alguns, amigos bem informados, descolados, cultos. Mas completamente analfabetos quando o assunto eram as Missões.

Tenho a impressão de que será necessário um paulo coelho da vida fazer o Caminho (não sem uma câmera da Globo a acompanhá-lo, bem ao seu estilo) para o Caminho das Missões entrar, definitivamente – e merecidamente – nos roteiros turísticos / culturais / históricos / esotéricos (sim, tem algo de mágico no ar) dos brasileiros.

Qualquer dia desses eu volto ao assunto, contando um pouco dessa minha experiência nas Missões. Quem sabe, eu até posso publicar aqui um “Diário do Caminho” – que escrevi ao longo dessa jornada - para lhe dar uma idéia (se é que já não o conhece) do que é esse roteiro fascinante.

dino - 03.12.2008

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